[em]silêncio

sábado, 6 de fevereiro de 2010

rasga
em mil pedaços
a palavra
“eu”
destrói
em mil
teu abraço
[no meu]

joga
no silêncio
meu vazio
contido
por não
poderes
me preencher

enrola
sob
fita
sobre
mola
sobre
mim
os restos
dos teus risos
para que
eu possa
também
sorrir

dá-me
a mão
quando
eu sentir
a solidão
esfriar-me
as pontas
dos dedos

vamos
juntos
ser
tudo
que
ainda
falta

[mesmo que seja em silêncio]

Os Olhos Atrás da Janela do Prédio Amarelo

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Quando o ônibus parou na rodoviária, Daniel ainda dormia um sono imperturbável. Precisou ser acordado por um dos passageiros que se penalizou ao ver o rapaz abraçado a uma mochila, obviamente para não ser roubado durante a noite. Daniel levantou-se, enxugou o canto da boca e equipou a mochila nas costas. No bagageiro superior ao assento, havia uma mala preta de pequeno porte, que Daniel pegou e transpassou a alça pelo ombro direito.
Daniel desce do ônibus.
O rapaz veste uma camiseta branca e calça jeans. O tênis all-star preto parace velho e confortável. Outra mala, dessa vez no bagageiro inferior. Outra mala preta. O som da rodoviária s multiplica, mas não aos ouvidos de Daniel, bem protegidos pelo som do cantor Beck.
Daniel é magro, de estatura mediana. Pele morena, escurecida pelo sol. Não é bonito e não tem charme habitual. Não usa barba e tem os cabelos cortados. É excepcionalmente normal e estuda letras na Universidade de São Bento, a universidade da cidade onde ele acaba de desembarcar. O rapaz arrasta um carrinho de metal com suas malas até o ponto de táxi na frente da rodoviária. Seu olhar encontra a fachada do prédio. Sente alívio pelo ar-condicionado do carro. É bom voltar.

São Bento é uma pequena cidade litorânea que abriga uma universidade para estudantes de muitos cantos do sul e sudeste. O fato de ser uma cidade universitária, não tira o sossego do pacato lugar, que além da universidade tem uma vila de pescadores e um famoso restaurante de frutos do mar. Um lugar naturalmente bonito e agradável.

O táxi para. A casa tem uma fachada de cor pêssego. Embaixo, o espaço é uma garagem. E cima, é a casa onde Daniel vive no período letivo. Ele e mais dois amigos que ainda não chegaram. A julgar pela garagem vazia. Daniel pensa na casa empoeirada. A poeira das férias. Sobe as escada que levam até a Morada do Sol, que é como chamam a casa. Deposita as chaves reservas dentro de um pote em cima de uma bancada do lado direito da porta, caça uma bermuda, troca de roupa, desentoca a bicicleta e vai ver o mar. O ano anterior havia sido difícil.


[continua...]


Para ler ouvindo: Beck – Lonesome Tears

Laranja meio avermelhado

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

... Ela ainda não havia se nomeado.
Tinta no cabelo. A mesma bebida de coloração duvidosa. Baladas diárias, sombras ao fundo dançando, gritando, sussurrando palavras sem sentido.
Correu o risco de se esquecer por alguns instantes, olhou para alguém como quem olhava para o espelho. Sorriu e entre os olhos um brilho de quem imaginou ter se encontrado: prazer, meu nome é você. Sorriu, sem estar bêbada. Quis, desejou estar em labirintos ainda não percorridos. Não encontrados.
“Diga-me quem eu sou e eu te direi quem tu és”, pensou psicodelicamente cabisbaixa. Ao desviar o olhar, o espelho havia desaparecido, a imagem não-refletida a fez bocejar um grito [contido]. Olhos
fixos em quem a olhava, sorriso copiado de um dia qualquer, vontades recortadas de uma filosofia relida.
Esboçou um gesto repetido, tentou ser quem nunca foi. Ameaçou sair. Ir embora. Desistiu.
. Ela ainda não havia se encontrado.

O que Dolores canta

domingo, 31 de janeiro de 2010

Cena mais que prosaica que podemos presenciar no nosso dia-a-dia de cidadãos pós-qualquer-coisa é o momento que nos debruçamos em frente à telinha mágica do computador para checar nossas redes sociais. Mais até do que a banana amassada com aveia no café da manhã, que, aliás, vem se tornando cada vez mais raridade. Afinal, quem no mundo pós-sabe-se-qual-revolução tem tempo de cortar a banana, amassar a banana, jogar a aveia, misturar a aveia... Nem pensar! É acordar, passar pelo chuveiro, enfiar-se na roupa e correr para a rua, para pegar o ônibus, para as vans congestionadas, para chegar ao trabalho...
O mundo anda acelerado. E já que é pra chover no molhado, posso dizer que isso reflete diretamente na maneira como nos relacionamos com as pessoas. De maneira rápida, sem muitas delongas. Basta ver o que acontece nos sites de relacionamento: Encontramos uma pessoa através de seu avatar (Ou ela nos encontra através do nosso), há a troca de mensagens inicial e se existe uma empatia mútua a conversa evolui e daí parte-se para um encontro fora do cyberespaço. O que acontece depois depende do que cada um procura ou acha no outro... E quando falta a tal empatia? É simples, basta deletar a pessoa junto com o seu avatar...
Pensar nisso me faz lembrar de uma canção da Dolores Duran, chamada “Solidão”, na qual ela cantava: “Eu quero qualquer coisa verdadeira... Uma dor, uma saudade, uma lágrima, um amigo...” Apesar de a primeira vista nada ter o cu a ver com as calças, basta lembrar que nesta simples frase está contida um desejo mais que inerente ao ser humano. Queremos nos relacionar, certo? De preferência com fundamento em bases sólidas, e principalmente verdade. E por mais que se passe revoluções-de-qualquer-tipo que transforme nosso modo de viver, as únicas coisas que mudam são os modos de percepção de cada época para os mesmos anseios.
Vivemos em um tempo em que há muitos meios que propiciam a comunicação entre as pessoas. Mas apesar de todas as facilidades que propiciam a aproximação, a grande maioria se sente solitária. Não é que a gente esteja se relacionando menos, é o contrário disso que acaba sendo prejudicial. A percepção que damos às interações humanas é a mesma dada ao mundo, então para que se aprofundar naquela pessoa quando tudo está a um clique de distância?
A efemeridade das relações neste cenário pode ser comparada ao curto período de vida de Dolores, que morreu aos vinte e nove anos. Mas ainda que tenha sido curta a sua trajetória de vida, foi intensa e interessante de uma maneira que não caberia dentro de cem anos. Com triunfos, amores e uma obra que atravessa o tempo, indiferente a qualquer “ismos” ou “ades”. Assim também são nossas necessidades mais básicas. Mas ainda que sejam variados os encontros, no fim acabam não aplacando a tal solidão. A maneira como funciona as interações não dá muito espaço para essas necessidades. Porque o mundo anda rápido...

A Bela Adormecida OU mais uma Historinha pra Boi Dormir

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010


Num reino não muito distante, havia um rei e uma rainha que desejavam muito ter filhos. Como isso não acontecia, pularam para a segunda página e foram buscar a ajuda de um especialista em reprodução. Não demorou muito a rainha pegou barriga.
Quando finalmente nasceu uma menina, o rei e rainha ficaram tão felizes que resolveram comemorar com uma big festa. Fizeram uma rave irada e convidaram todos os súditos, inclusive as fadas, que — como alguns políticos brasileiros — tinham o costume de distribuir favores.
No dia da festa, as três fadinhas, perfiladas, se aproximaram da recém-nascida e lhe concederam um dom.
— Será a moça mais gostosa do reino. — disse a primeira — Tão gostosa que os homens desejarão a sua nudez estampada em uma famosa revista masculina.
— Riqueza e luxo não lhe faltarão— disse a segunda — nem que para isso tenha que engravidar de um jogador de futebol na crista da onda.
A terceira estava prestes a conceder o seu favor, quando um raio clareou o salão e dele surgiu uma velha fada aposentada. Ofendida, por não ter sido convidada, a safada, ops, a fada lançou um olhar de Odete Roitman para a princesinha e praguejou: “No seu décimo quinto aniversário, irá ferir os seus delicados olhinhos em um objeto suspeito e morrerá”.
Em seguida, partiu gargalhando, deixando pais e convidados consternados.
Então a fada que ainda não havia concedido o último dom, aproximou-se e disse: “Não posso desfazer a maldição, mas posso amenizá-la. A menina não morrerá; dormirá até que surja um príncipe que a liberte do feitiço”.
Depois de consultar os sábios do palácio, o rei descobriu que o objeto da profecia, era um novo invento que curiosamente fazia muito sucesso entre os plebeus. Preocupado com o futuro da filha, o rei tomou algumas providências. Mandou queimar todos os televisores que existiam no reino e decretou pena de morte àqueles que desobedecessem às suas ordens.
Os anos se passaram. A princesa cresceu sadia e bonita, e cercada de seguranças.
No dia que completou quinze anos, seus pais abriram as portas do castelo para um baile. Queriam apresentá-la à sociedade e, de quebra, lhe arranjar um bom partido. A rainha, ocupadíssima com os preparativos, decidia se os DJs tocariam Tony Braxton ou os solos do Kenny G. O rei estava ausente. Tinha ido à joalheria dos setes anões escolher um presente para a filha.  
Dando um perdido nos seguranças, a princesa deu um rolé pelo palácio e, como quem procura acha, acabou de cara com uma escada suspeita. Subiu os degraus e se deparou com a porta entreaberta. Do lado de dentro, vinha um ruído curioso. Viu então uma velhota sentada em uma cadeira de balanço, olhando fixo para um objeto retangular, cheio de botões.
— Olá, vovozinha.
— Olá, menina — respondeu a velha cordialmente.
— O que está fazendo? Que objeto é este? Não me lembro de tê-lo visto antes.
Sem desgrudar os olhos da tela, a velha respondeu:
— Como? A menina nunca assistiu televisão?
— Te-le-vi-são? — balbuciou inocentemente a menina. — O que é televisão?
— Televisão, minha linda, é este objeto... Através dele podemos ver o que desejamos e também o que não é desejado.
— Você quer assistir um pouquinho? Venha, sente-se aqui ao meu lado — disse ajeitando a almofada — Esta poltrona estava esperando por você.
A menina, curiosa como só, acomodou-se na poltrona e arregalou bem os olhos, atraída pelo colorido da tela. De repente, sentiu a cabeça girar e o corpo desfalecer. As suas pálpebras enrijeceram e ela enfim adormeceu, de olhos abertos.
Logo, deram por falta dela. Os guardas vasculharam todos os cômodos do castelo e encontraram a princesa hipnotizada, encorujada diante da televisão.
O rei e a rainha ficaram desolados. Todo o reino se entristeceu diante da sorte da princesinha. Não havia uma só pessoa motivada.  Foi então que as fadas tiveram uma ideia. Sacudiram as suas varinhas mágicas, e num piscar de olhos, fizeram aparecer um enorme telão de plasma.
Entretidas com a programação, aos poucos as pessoas foram se esquecendo dos problemas, das tristezas e dos afazeres e foram ficando entorpecidas com as imagens que surgiam diante dos olhos. Lentamente, toda a população do reino foi caindo em um estranho sono.  
Os anos se passaram e, por causa do abandono, um matagal cresceu em volta do castelo. Um espinheiro tomou conta das paredes, fixou-se às portas e janelas e a tudo que encontrara pela frente. O ar sombrio do palácio despertou nos viajantes que por ali passavam curiosidade e medo. Aos poucos, o boato de um castelo amaldiçoado se espalhou e com ele a triste história de uma princesa adormecida que só despertaria com um beijo de amor.
Passaram-se cem anos. Nenhum príncipe apareceu. O tipo estava em falta no mercado. As fadas bem que tentaram encontrar um bom príncipe, mas deram com os burros n’água. Os melhores já estavam casados com princesas de outros contos. Uns, transformados em sapos, outros, em borboletas.
Um dia, a lenda da princesa chegou ao ouvido de um príncipe que morava em um reino a quilômetros de distância dali. Ele não era valente, mas como não conseguia se casar, porque no seu reino só havia barangas, sentiu-se encorajado a conferir se o boato era fato.
Viajou durante vários dias a cavalo, atravessou rios e desfiladeiros, desertos e montanhas e depois de uma longa jornada, chegou todo desconjuntado aos portões do reino. Os viajantes que por ali passavam, aconselharam-no voltar. Mas o príncipe, teimoso, seguiu adiante. Com muita dificuldade conseguiu abrir passagem e alcançar os salões do palácio. Encontrou todos dormindo pelos cantos e, depois de percorrer os mil aposentos reais, encontrou finalmente e exausto o quarto onde a princesa dormia.
Caminhou lentamente até o leito e se debruçou para ter uma melhor visão. Ficou encantado com a princesa que, apesar dos muitos anos de vida, conservava ainda o frescor da juventude. Estava profundamente atraído por ela. Tomou-a docemente nos braços e sentiu a maciez de sua pele. Colou o seu rosto no dela, cerrou os lábios e se preparou para lhe dar um arrebatado beijo de amor e, de uma vez por todas, quebrar o feitiço...
 “GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL! ” — gritou uma voz pernóstica que vinha de dentro do televisor.
Ao escutar o locutor esportivo anunciando o golaço do Fimdomundopólis, o seu time do coração, o príncipe deu um pulo para comemorar e largou a princesa no chão. Daquele momento em diante não olhou mais pra ela. Ficou vidrado na TV, acompanhando os últimos minutos da partida do campeonato inter-reinos.
No final, só no final, com muito custo, ele voltou a admirá-la, mas a vontade de beijá-la já havia passado.
“Era bela, sim, muito bela!” pensou. Mas assim que despertasse talvez a flor da sua juventude murchasse. Preferiu não arriscar! Além do mais, tantos anos dormindo, a teriam deixado com um bafo do cão. Preferiu não arriscar! “E pra que se casar?” Era belo, forte, másculo poderia ter quantas mulheres quisesse. “Uma mulher em casa, pra quê?” Pra mandar na sua vida, implicar com a pelada nos finais de semana? Reclamar da tampa da privada levantada? Achou melhor não.
Devolveu a princesa ao leito. Deu-lhe apenas um beijo na testa. E partiu, levando consigo somente uma coisa: a televisão.   

Clarice Lispector: Uma experiência fundamental

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O presente artigo se estrutura como uma pesquisa exploratória da arte literária brasileira, em conjunção à ação cultural que visa a apresentar ao jovem contemporâneo o dialogismo presente na obra literária de Clarice Lispector.

E por que Clarice Lispector? Pesquisando os escritores tradicionais e contemporâneos, uns que escreveram e outros que ainda escrevem para a infância e para a adolescência, destacam-se, por exemplo, Antônio de Alcântara Machado (pela realidade social e urbana na literatura); Érico Veríssimo (personagens em conflito existencial); Rubem Braga (crônicas cuja linguagem se caracteriza pela carga lírica e humana); Olavo Bilac, Manoel Bandeira, Manuel de Barros e Cecília Meireles (poética); Monteiro Lobato, Marina Colasanti, Lygia Bojunga e Pedro Bandeira (imaginação e comunicação com o leitor).
Porém dentre esses escritores, tradicionais ou contemporâneos, a percepção da intertextualidade e do dialogismo surpreende a crítica em 1943, com uma estreante na literatura ,com o livro intitulado Perto do Coração Selvagem. Eis que surge Clarice Lispector, demonstrando qualidades excepcionais de romancista, originalidade de estilo e rara penetração psicológica.

A leitura do texto de Clarice Lispector propicia uma experiência singular com o discurso simbólico. Pode-se afirmar que o leitor infantil e juvenil amplia suas possibilidades de abordar os mecanismos discursivos contemporâneos cujas armadilhas comunicativas encobrem intenções mercadológicas e ideologias que são convenientes ao estabelecimento de um pensamento hegemônico e pouco reflexivo. Para contrapor essa tendência, atualmente, se realizam ações culturais como a que esta pesquisa se propõe, não sem o esforço de seus realizadores, no que se refere ao estudo dos textos, dos referenciais teóricos e dos mecanismos didático-metodológicos adequados para favorecer o enriquecimento cultural das crianças, dos adolescentes e dos jovens do Ensino Fundamental.

As estratégicas das rodas de leitura, também ampliam o universo cultural e literário dos alunos voluntários do curso Superior de Tecnologia em Produção Cultural do IFRJ/Campus Nilópolis. O aprofundamento na Semiótica, na Crítica Literária e nas questões discursivas, como por exemplo, nas lições oriundas do pensamento do filósofo e teórico da literatura Mikhail Bakhtin, interferem positivamente na apreensão das relações dialógicas e polifônicas dos discursos. Por meio desses estudos e de sua aplicação, esses futuros produtores culturais estão se aparelhando para exercer suas funções com o olhar fortalecido, com capacidade de opinar, refletir, escolher e compreender os diferentes significados dos bens culturais.
O esforço do pesquisador do discurso é o de perceber as vozes que ressoam do texto e as relações dialógicas entre elas: autor, intertexto, interlocutores reais e imaginários e o contexto comunicativo. Esses elementos reforçam a existência do dialogismo cultural e textual na obra clariceana. As imagens feitas de palavras, estejam elas presentes em contos, crônicas, romances ou histórias infantis, desafiam os jovens leitores à reflexão, e lhes propicia uma experiência de receptividade e encantamento.

As rodas de leitura no CIEP 136 Stella de Queiroz, com 16 alunos do 4º e 5º ano do ensino fundamental, se realizaram com a leitura de dois livros infantis de Clarice Lispector: A vida íntima de Laura e A mulher que matou os peixes. As atividades de leitura do primeiro livro foram divididas em três etapas: pré-textual (apresentação da autora e do livro), textual (análise dos personagens) e pós-textuais (comparação de linguagens intertextuais).
No início das atividades, os alunos apenas decodificavam as letras, sem observarem a carga simbólica da arte literária e o dialogismo do texto literário. Foi necessário o desenvolvimento de estratégias metodológicas para que a leitura espontânea acontecesse e os alunos passassem a expressar-se oralmente e por escrito. A partir do segundo livro, a leitura encontrou seu ritmo. O aluno fez referências, observou mais atentamente as inovações quanto a elaboração dos sentidos das frases e expressões, organizou o seu pensamento, tornando-o mais articulado e nítido. Começou a perceber o jogo simbólico das palavras e dos ícones ilustrativos, e levantar hipóteses de interpretação sobre o conteúdo da história e sobre as intenções da estrutura do texto.
Ao ler um parágrafo, o aluno passou a ser capaz de discutir idéias, expor interpretações individuais e partilhar das experiências geradas pela incursão dos textos. Lendo, o aluno ouvia a si mesmo, errava, corrigia, discordava, imaginava.

O dialogismo na obra de Clarice Lispector, ou seja, o estudo referente à relação entre o texto e seus outros; as ressonâncias dialógicas (as pausas, a atividade implícita, o que se deixou de dizer, o que deve estar deduzido, o verbal ou não-verbal), está presente também no Colégio Paulo Pontes, onde houve a análise de crônicas, contos e romances. Os alunos do 6º e 8º ano do ensino fundamental experimentaram as diversas ressonâncias textuais presentes na pintura abstrata, na poesia e nos textos clariceanos. Eles analisaram o texto como exercício de superposição de lógicas diferentes. Desmontaram o texto, interpretaram, observaram e compreenderam o objeto. Perceberam que a literatura clariciana é ir além, é ler de uma forma que nunca ousaram ler antes, é sentir e ver o que está explícito ou implícito.

Poesia de Luto

sábado, 16 de janeiro de 2010

Lua nova,
Mortos sobre a calçada,
sorrindo, comprando.
Há uma música que acalanta seu sonho.
Tentei intervir inutilmente.
Quebraram a corda do meu violino!
Empurre-me dessa ponte!
Não, não sou inocente, não sou!
O murmúrio se quebrou.
Allan Poe, socorro!
Baudelaire foi atropelado,
enquanto admirava uma dama.
Munch testemunhou e gritou:
A culpa é do motorista!
Veio o berro horroroso
de um pássaro feioso
AICNÂLUBMA
Emergência...
Deixa pra lá!
Não chegaram a tempo.
Pobre amor,
mesmo rimado com a dor ou com a flor...
Sentiremos sua falta.

A Ratoeira com Creative Commons


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Boas Leituras!

Haiti, ai de ti!

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

"Pense no Haiti! Reze pelo Haiti! O Haiti é aqui! O Haiti não é aqui!,"- Gilberto Gil.


Realmente eu não gosto de me pronunciar sobre certas notícias que, hora ou outra, aparecem nos meios de comunicação. Desconfio muitas vezes do interesse dos jornais e telejornais, quando abordam de forma excessiva algum crime, escândalo ou tragédia. Este é o caso do Haiti. O terremoto, que até agora parece ter vitimado dezena de milhares de pessoas, tem servido não apenas de mote para a informação e para mobilização mundial; serve também de chamariz para aumentar os índices de audiência e criar, amiúde, na cabeça do espectador imaturo, imagens equivocadas e preconceituosas sobre o país onde ocorreu a catástrofe.

Pode parecer um tanto radical mencionar apenas os aspectos negativos dos meios de comunicação. Afinal, como poderíamos sobreviver sem as notícias que nos chegam diariamente através da internet, rádio e TV? Bem, não pretendo culpar tais veículos, pois acredito que cumprem com eficiência a boníssima função de informar. (Meus elogios não passam daqui!) Sinto-me, contudo, preocupado com aquilo que é absorvido pelo público e com o imaginário de um povo, flagrantemente influenciável, que sem o menor trabalho de reflexão, costuma fazer julgamentos superficiais e sofismas, sobretudo, instigado por certas entidades.

Ontem, na ida à faculdade, pude verificar bem isso, ao presenciar, no trem, a conversa de dois senhores. “Isso que aconteceu é sinal dos tempos!”, disse uma senhora apreensiva. “Sim, um castigo divino! Deus está se vingando daquele povo, pela falta de fé e de temor religioso...”, endossou o outro, visivelmente perturbado.

Não vou me alongar muito, buscando reproduzir este diálogo, mas apenas devo avisar ao leitor que, assim as palavras se seguiram, encaminhando-se para um destino triste e banalmente previsível, beirando sempre à presunção e à total ausência de compaixão para com o sofrimento alheio.

Permaneci calado, pois a vida me fez aprender que, em algumas circunstâncias, o ato mais sensato é sempre o silêncio. No entanto, meu coração e semblante sinalizavam uma intensa revolta, tanto que precisei mudar de lugar.

Este pequeno trecho serve apenas para ilustrar o objeto deste artigo e apontar a direção para onde as minhas inquietações convergem. O que realmente tem acontecido com o mundo? Com as pessoas? Que rumo levou a compaixão e a solidariedade? De onde tiram as pessoas tantas certezas para julgar e assinar a sentença do próximo?

Fico abismado com essa insensibilidade, com essa ilusória certeza de que o mesmo não nos acontecerá, porque somos protegidos por uma fé paradoxalmente vaidosa. E aí, caso sejamos surpreendidos por uma grande tragédia (não ouso chamá-la fatalidade), o que dirão os abutres de plantão? Quais vozes, repletas de sabedoria e de pretensão religiosa, se levantarão contra o povo de que fazem parte? Pois, sensata apenas se mostra a natureza, que não parece fazer distinção.

Diante de tanta tristeza que nos invade as casas, nos últimos dias através dos aparelhos televisivos, penso que o melhor sentimento religioso que podemos ter em relação ao Haiti (e qualquer outra nação padecente) é o da compaixão. Aquela compaixão genuína ensinada por Cristo, sentimento este, que infelizmente vem sendo muito rapidamente apagado pela nossa desalmada incapacidade de olhar para o outro, com piedade.

Livraria

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Quinta-feira. Muito calor. Mas fora da livraria. Dentro, um sujeito lê um pequeno volume que quase não se identifica na palma da mão agigantada pelo leite de antigamente – dizia a mãe do sujeito.

Todas as quintas já se sabia onde o sujeito estaria, lendo o mesmo volume imperceptível nas grandes patas. Uma vendedora já havia notado que o homem toda quinta passava pela livraria e sem se importar em comprar o livro folheava, sentava-se num dos bancos e divertia-se que vez em quando até chegava a abrir um sorriso. Numa das quintas a vendedora passou a notar que quando o homem adentrava a loja consultava a palma da mão. “Deve ser a página marcada da semana anterior”, pensou ela. Decidiu ela então perguntar ao homem, por sua conta e risco, qual era o problema dele.

- Posso ajudar?

- É... acho que sim.

- Acha?

- Tô tentando por dias conseguir seu telefone e não tenho coragem. Não é você quem me atende e agora consegui dizer isso.

A vendedora, meio sem jeito, anotou num pequeno cartão o telefone dela para o homem. A semana seguiu e no domingo, os lençóis e o colchão do pequeno conjugado da moça pareceu pequeno para os membros do gigante. Se lambuzavam a todo o custo e a todos os sabores que poderiam experimentar. Deliciaram-se nos prazeres que a carne nos cede e brincaram de todas as brincadeiras eróticas que conseguiram. Por fim, o rapaz levantou-se e saiu apressado, depois de um banho rápido no chuveiro frio do minúsculo apartamento. Ela, anestesiada pelos seus gemidos, sussurros e gozos, beijou o papel com o telefone do homem e cheirou a roupa de cama e ainda não satisfeita, se satisfez acariciando-se e voltou a tremer pensando naquelas mãos e membros. O homem, sentado na condução, pensou em usar outra livraria para acabar de ler o pequeno volume e em não mais usar aquela pequena mulher.

 

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